quinta-feira, 23 de março de 2017

8


Sempre fui miúda de sonhos descabidos
miúda grotescamente poética,
chata de coisas que chateiam
de pernas fininhas que depois engrossaram

as miúdas poéticas são bobinas de filmes, riscadas
são gaitas desafinadas
onde muitos passaram os lábios
mas não ficaram
as miúdas poéticas contemplam o suicídio
mesmo depois de uma taça de Corn Flakes
olham os telhados laranja de Lisboa
e pensam noutro sítio qualquer
semeiam flores para terem perfumes
matam-nas, por amá-las de mais

as miúdas poéticas têm cabelos desmoronados
de beatas e perguntas
têm roupa de detergente barato
e as unhas roídas à la carte
tossem devagarinho com medo de
agredir alguém
têm posse de girafa mas não chegam às árvores


Cláudia R. Sampaio

quarta-feira, 22 de março de 2017

Sou instante.

Sou instante.
É assim que escrevo, com a alma enfiada nos dedos
ou os dedos enfiados nos olhos
miraculosamente sentada, respirando,
sendo a faca cortada ao meio
sendo a coluna um pouco torta perto de
uma janela quase sempre aberta
como se daí viesse tudo.
Talvez a cabeça enfiada neste corpo seja
um grito que vem de outra boca,
ou de asfaltos, ou de peixes voadores.
Talvez este desencontro inscrito em mapas venha
de pássaros desajustados bicando planetas.
Eu devia ser a água vertida em bebedouros imundos,
tornando-os úteis
devia ser a noite de sexo incendiada, em que o fôlego
fosse altar
devia ser do espaço onde me coubesse eu-só
devia ser trocada por três côdeas
ou por um livro do Cesariny
ou por um pranto
Qualquer coisa que me levasse daqui.
Porque eu descalço-me antes de caminhar sobre mares.
Com estes dois pezinhos aprendizes, assim me
vou até ao fundo
e no meio das convulsões e dos impulsos que
me calçam, deverei existir
Que a minha verdade me seja entregue por quem
me entrar no infinito:
ninguém
Não duvido de que ficarei sozinha
e há tanta beleza nisto que tremo toda
enfiando um dedo na eternidade
Podemos ser abandonados por todos
mas seremos imortais por conta própria.


Cláudia R. Sampaio

segunda-feira, 20 de março de 2017

Mis palabras dejarán de hablarme algún día / Um dia, as minhas palavras deixarão de me falar

Mis palabras dejarán de hablarme algún día.

Será gradual, como la rotación o el envejecimiento -aunque envejezca de martillazo ante la idea de quedarme muda-. Mis poemas se acortarán y en consecuencia me crecerá una sordera permeable: nada sin poesía será escuchado.

Merezco que mis palabras no tengan derecho a matarme de silencio súbito, así deba tolerar su desamor hasta arrugarme

Pero el silencio es la parte más exacta y filosa del sonido

El silencio será mi poema perfecto.

Susan Urich

Um dia, as minhas palavras deixarão de me falar.

Será gradual, como a rotação ou o envelhecimento – mesmo que envelheça à martelada perante a ideia de me mudar. Os meus poemas tornar-se-ão diminutos e em consequência crescer-me-á uma surdez permeável: nada sem poesia será ouvido.

Mereço que as minhas palavras não tenham direito a matar-me de silêncio súbito, mesmo que tenha de tolerar o seu desamor até ficar com rugas.

Mas o silêncio é a parte mais exata e afiada do som

Será o silêncio o meu perfeito, poema

(trad: alberto augusto miranda)


domingo, 19 de março de 2017

Brasil Encarnado

 Brasil Encarnado
Inauguração Exposição de Sacha Habermann
30 de Março 2017  17:00 - 20:00
Armazém
Rua de Miragaia, 93, 
Porto

sábado, 18 de março de 2017

os pássaros comem os céus

ao esmagar as mãos contra o sol
no deambular das casas
nos frutos que torcem
os telhados ao pensamento
os pássaros comem os céus
nas grinaldas da noite
Carlos Vinagre

são paulo


sexta-feira, 17 de março de 2017

O circo da dignidade


Cobri o meu corpo com a languidez
da vergonha para não espantar
os assistentes durante a receção.

Ocultei também o pé direito
por medo à carne mais lasciva
e no meu interior ativou-se
o mecanismo mais obsceno.

No começo ofereci aos espetadores
a voz como única identidade.

Logo fui desvestindo aos poucos
cada centímetro de pele
e invoquei tudo o que suprimira
de mim de jeito consciente.

Eles, ainda ignorantes da mudança,
segurança prendidos do sinuoso fio
da minha voz.

No final, despida por completo,
calei.

Eles contemplaram
e compreenderam que eu não era
o que sempre viram.

Servi-me então da rosa
e tatuei-lhes nas mãos
o circo da dignidade.


Tamara Andrés

quinta-feira, 16 de março de 2017

despara-isso


Uma "comédia séria" para dois actores sobre a diáspora africana lusófona nos subúrbios de Lisboa.

Direcção: Paulo Campos dos Reis
Interpretação: Adriano Reis e Ricardo Soares
Adereços: Lucrécia Alves
Fotografia: Nuno Gomes
Designer gráfico: Norma Carvalho
Assistência de produção: Rute Xavier
Coordenação de projecto: Paulo Campos dos Reis e Ricardo Soares
Produção: MUSGO Produção Cultural

quarta-feira, 15 de março de 2017

barticínio

Pela orla tem Orlando duas tolas, tem bitola. Antes da intrusão citacional que a Jano leva o impulso comentatório, a polimudez inteirada em memes com apps de proprietários, desfolha o sonoro da erva novecentista que prossegue sem a avidez de um peixe tentando escapar à rede. Porém é exactamente hoje. O futuro, ou, sendo vates, o vaticínio, regurgita o pastado, cujo pelos nanotextos se declama passado, como se todos vivêssemos sopas com a densidade fumegada dos vegetais sujeitos a varinha.

Vai pelos clérigos um homem em busca do al-gharb carregado com um saco de batatas da póvoa. É muito noite quando deflagra o noitálogo: “Onde é a camioneta?”. As luzes de comércio trabalham a sucção de uma lógica contentável na borla dos estandos. Na loja das massagens, estão os membros grelados pela competição manual. Fecha os olhos quem do próprio corpo se esgueira. E a queda da palavra pura reúne consenso sensorial para a fuga.

Da borda, um café imenso e forte, os mortos sofrem de surtos impressionistas: são levados a uma posição em redundância posta, seja: uma suposição. O instantâneo – isto é: a não-continuidade – alberga as fantasias do falo, as falácias. Brota no corpo o pânico muito antes do almejado fim. Em memória e ciência, o fim é um rigoroso início. A ausência de Eros, manifesta-se na ganância dos Meios. E circundando o Mesmo se levanta forte a Mesmorra onde se instalam deste mundo todos os C'egos.

alberto augusto miranda

terça-feira, 14 de março de 2017

XV

XV

Una mujer está asando batatas
con los rescoldos de la lumbre.
Por su pelo aceitado caen acordes de sitar.
Cada pliegue del sari con que cubre su vientre
anuncia la matriz, la reclusión.

Se puede confundir el tintineo de ajorcas
con el de la llovizna.
Canta y en cada nota la quietud
converge en la tahona que olía a albaricoques.
Canta y fragmenta vértice o frontera.

La noche es una herida de colmillos de mono
que empieza a supurar.

Verónica Aranda

XV

Está uma mulher a assar batatas
no borralho do lume.
Pelo seu cabelo oleado escorrem acordes de sitar.
Cada prega do sari com que cobre o ventre
anuncia a matriz, a reclusão.

Pode-se confundir o tilintar de guizos
com o do chuvisco.
Canta e em cada nota a quietude
converge na padaria que cheirava a damascos.
Canta e fragmenta vértice ou fronteira.

A noite é uma ferida de dentes de macaco
que começa a supurar.

(trad: alberto augusto miranda)


segunda-feira, 13 de março de 2017

Manifiesto / Manifesto

MANIFIESTO

No reconozco la indulgencia de los otros
ni comparto la férrea voluntad del miedo
sobre las anchas sombras que su sed proyecta.

Tiendo los brazos a las infinitudes de la luz
y llamo patria a las heridas de mi cuerpo.

Sara A. Palicio

MANIFESTO

Não reconheço a indulgência dos outros
nem partilho a férrea vontade do medo
sobre as largas sombras que a sua sede projeta.

Estendo os braços às infinitudes da luz
e chamo pátria às feridas do meu corpo.


(trad: alberto augusto miranda)

domingo, 12 de março de 2017

*no livro dos mortos vermelhos

PARANOICO de infinito,
atento à demonologia interior,
o servo de um diário niilista confabula:
é fácil observar o comportamento das bestas
e seguir o oposto
para o caminho da redenção
mas e a besta, no espelho do homem,
poderá se redimir?
não mais, enquanto, porém:
o coração, esta máquina de apontar blasfêmias alheias,
faz o julgamento egípcio
enrubescer
avermelhado como um serrote
na polpa de um algodoeiro
seu drama dadaísta
avança sobre os bestiários
como um inflado balão
branco e volátil
no improviso do final dos tempos


*Andréia Carvalho Gavita

sexta-feira, 10 de março de 2017

L’hivernar de l’ós / O hibernar do urso

L’hivernar de l’ós

Em vaig enamorar
del cordó umbilical.

Em donava els requeriments,
me’ls oferia a la boca.

Ara visc en l’enyor perpetu
de totes les vides
a què m’hauria pogut amarrar
amb aquell conducte
de carn i visions.

La meva mare
encara no sap
de les pintures rupestres
que li vaig dibuixar
a la paret uterina.

Anna Gual

O hibernar do urso

Apaixonei-me
pelo cordão umbilical

Dadivava-me os requisitos
oferecia-mos à boca.

Vivo agora a imbuição perpétua
de todas as vidas
a que me teria podido amarrar
nesse canal
de carne e visões

A minha mãe
ainda não sabe
das pinturas rupestres
que lhe vou desenhar
na parede uterina


(trad: alberto augusto miranda)