sábado, 24 de junho de 2017

Silencio en la mesa / Silêncio na mesa

Silencio en la mesa

Mientras masticamos la carne del abandono
alguien ha corrido una silla
para sentarse y beber con nosotros.

Vivimos en sonidos que no podemos decir,
improvisamos un concierto que jamás vendrá:
el piano suena muy alto y mis voces callan.

Morir es mejor que oír,
los músicos son niños con hambre.

Catalina González Restrepo

Silêncio na mesa

Enquanto mastigamos a carne do abandono
alguém pegou numa cadeira
para se sentar e beber connosco.

Vivemos em sons que não conseguimos dizer,
improvisamos um concerto que jamais virá:
o piano toca muito alto e as minhas vozes calam.

Morrer é melhor que ouvir,
os músicos são crianças com fome.

(trad: alberto augusto miranda)


quinta-feira, 22 de junho de 2017

barulho de serra elétrica


quando penso que cresci primeiro entre barulho de serra elétrica de carne (cortando osso), a mãe açougueira; quando penso que depois a mãe se tornou costureira, que continuei crescendo entre manequins nus e carecas, quando lembro que olhos então guardavam o mistério da imobilidade ótica dos peixes expostos sobre o gelo no hortifruti, bustos, perucas soltas, tesouras, moldes em papel pardo tentando algum paralelismo com corpos, barulho de máquinas overlock, galoneira, almofadinhas crivadas de alfinetes e agulhas (o reflexo do sol na ponta da agulha mais alta, como o dedo de um deus doméstico em inox, prestes à criação de outra eva) -

quando penso em tudo penso: escrever


Mar Becker

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Yoo lidxe’ / Casa primeira

Yoo lidxe’

Dxi guca’ nahuiini’ guse’ ndaani’ na’ jñaa biida’
sica beeu ndaani’ ladxi’do’ guibá’.
Luuna’ stidu xiaa ni biree ndaani’ xpichu’ yaga bioongo’.
Gudxite nia’ strompi’pi’ bine’ laa za,
ne guie’ sti matamoro gúca behua xiñaa bitua’dxi riguíte nia’ ca bizana’.
Sica rucuiidxicabe benda buaa lu gubidxa zacaca gusidu lu daa,
galaa íque lagadu rasi belecrú.
Cayaca gueta suquii, cadiee doo ria’ ne guixhe, cayaca guendaró,
cayaba nisaguie guidxilayú, rucha’huidu dxuladi,
ne ndaani’ ti xiga ndo’pa’ ri de’du telayú.

Natalia Toledo


Casa primeira

Em criança dormi nos braços da minha avó
como a lua no coração do céu.
A cama: algodão que saiu da fruta estragada,
Fiz das árvores azeite; e vendi aos meus amigos
como guaxinim a flor da acácia.
Tal como secam os camarões ao sol, estendíamo-nos numa trouxa
Por cima das nossas pálpebras dormia a cruz de estrelas.
Tortas feitas no barro, fios tingidos para as redes,
a comida fazia-se com a felicidade de uma morrinha sobre a terra,
batíamos o chocolate
e numa xícara enorme serviam-nos a madrugada


(alberto augusto miranda)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Tu padre no te espera ya. / O teu pai já não te espera

Tu padre no te espera ya. Entre cabras
y perros fue olvidando todo aquello
que alguna vez le perteneció incluida tu
fama y el último beso.

Tu casa es una trinchera de gatos
despellejados. La cama que plantaste
con tanto esfuerzo en el ático, bordeando
al mejor de los árboles, es ahora
el lugar donde copulan palomas para que
nazcan insectos.

Tu hijo se me perdió en el vientre,
no tendrá que enterrarte.

¿Cuántos pueblos liberaste? ¿Qué harás
con tanta medalla,
tantísima joya obtenidas del saqueo?
Ningún mueble quedó para adornarlo
con alguno de tus dorados trofeos.

Vienes de la guerra y qué encuentras: una
carreta llevándome

Teresa De Jesús Casique

O teu pai já não te espera. Entre cabras
e cães foi esquecendo tudo aquilo
que alguma vez lhe pertenceu incluindo a tua
fama e o último beijo.

A tua casa é uma trincheira de gatos
esfolados. A cama que colocaste
com tanto esforço no sótão, bordejando
o melhor das árvores, é agora
o lugar onde as pombas copulam para que
nasçam insetos.

O teu filho perdeu-se-me no ventre,
não terá que te enterrar.

Quantos povos libertaste? Que farás
com tantas medalhas
tantas joias obtidas no saque?
Nenhum móvel ficou para ser adornado
com algum dos teus dourados troféus.

Vens da guerra e o que encontras: uma
carroça levando-me.


(trad: alberto augusto miranda)


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Escavação



Se durmo reconstrúense os tecidos
e pasa a semana

bórrase a vida máis do que parece.

Eu son borborotos
esporas de simple calor
sen contido, sen alfabeto

pero os luns volvo a perdelo todo
e achégome a aquela antiga escavación
onde atopamos algo diferente
ao que se buscaba.

Pésame aquel desleixo
que estragaba os traballos
e non dou lavado o trapo pobre
que puxemos
para cubrir unha touca sagrada, incorrupta

nin a terra moura
apegadiña á última carne das unllas.


Ollala Cocina

domingo, 18 de junho de 2017

Tuna


Preciso pintar a face com sinos. Costurar ao corpo a saia de jade. Oscilar os fios de serpentes na borda afiada da cratera. Sem ferir o monstro da terra, sem morrer durante o parto. Preciso plantar o milho sagrado, decifrando o calendário extinto, em horas de lua asteca e sol incaico. Depois cozer o pão com formato de estrelas, sem incinerar aldeias. Sem alimentar a siderurgia que queima a face pintada com sinos, que rasga a saia de jade, ferindo o monstro da terra, morrendo durante o parto. Mas danço ao ritmo esquizo de uma despedida fronteiriça. Dos rituais ancestrais restaram incólumes os bisnetos sacrifícios. Os crânios alongados estão reduzidos. As bestas primaveras do jardim escondem-se sob meus pés, cinzentos de junco e júbilo. Sai-me uma centopeia pela boca. E a chuva industrial me apaga os pontos riscados.


Andreia Carvalho

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Soñé mujeres sosteniendo sus vaginas / Sonhei mulheres sustentando as suas vaginas

Soñé mujeres sosteniendo sus vaginas
hombres devorándose los miembros
bajo el sol
llevé una mano entre mis piernas y recé
porque siguiera ahí
intacto lo profundo bajo el vello
no podía llorar
supe que los dedos mienten
que la oscuridad no tiene tacto
y cualquier abismo se parece al útero

alguien calló
entre mi cuerpo insondable
y no pude rescatarlo

ellas temían ser arrastradas
caer al vacío si separaban las piernas
cuando estaban solas
o siendo soñadas

apreté los ojos abiertos
desde adentro
y me resistí a mirar cómo se daban vuelta
para que la asfixia
no golpeara con violencia
la cuenca de los senos

ellos
sembraban genitales como minas en la tierra
se protegían del vértigo
y era la mutilación
una forma de andamiaje

algunos hurgaban
removían la herida para estar seguros
de que no se abrieran
un par de labios
bajo la sangre.

Abril Medina

Sonhei mulheres sustentando as suas vaginas
homens a devorar os membros
debaixo do sol
pus uma mão entre as pernas e rezei
porque continuava ali
intacto o profundo sob a penugem
não conseguia chorar
soube que os dedos mentem
que a escuridão não tem tato
e qualquer abismo se parece com o útero

alguém calou
entre o meu corpo insondável
e não consegui resgatá-lo

elas temiam ser arrastadas
cair no vazio se separassem as pernas
quando estavam sozinhas
ou a ser sonhadas

apertei os olhos abertos
por dentro
resisti ver como davam a volta
para que a asfixia
não golpeasse com violência
a enseada dos seios

eles
semeavam genitais como minas na terra
protegiam-se da vertigem
era a mutilação
uma forma de andaimes

alguns mexiam
removiam a ferida para terem a certeza
de que não se abririam
um par de lábios
sob o sangue.

(trad: alberto augusto miranda)


terça-feira, 13 de junho de 2017

tenho a noite estilhaçada na jugular

tenho a noite estilhaçada na jugular
e uma fome que não abandona seu canil.

esta carne permanentemente em queda.

há um pônei desidratado no peito
e uma puta carecendo de abrigo
sou a encarnação de quedas passadas
imploro por perdões e ossos melhores
mas não há céu que me ouça.

tento fotografar meus batimentos cardíacos
para emoldurá-los nas paredes de casa
mas antes mesmo do click
regurgito-os cheios de ontens intactos.

sujo as imagens para vislumbrar a queda.


Raquel Gaio